Na 6ª feira passada uma grande correção se iniciou na bolsa de valores americana. O estopim parece ter sido um report do analista Andrew Left, da Citron Research (firma especializada em short selling) sobre a empresa fabricante de chips Nvidia (NVDA). O fato de Left ter obtido grande sucesso ao publicar um call similar na empresa farmacêutica Valeant (VRX) deu a ele notoriedade e credibilidade. Não ajudou o fato de a Goldman Sachs ter alertado no mesmo dia para uma nova bolha de tecnologia ao emitir comentários negativos sobre as FAAMGs (Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google). Ambos parecem ter sido determinantes para que todo o setor de tecnologia (setor líder em 2017) sucumbisse às pressões vendedoras.

O setor de tecnologia é caracterizado por ter entre seus componentes empresas do estilo ‘growth’, cujos lucros (espera-se) devem crescer a uma taxa acima da média do mercado e que, por esta razão, comandam prêmios nas métricas clássicas de valuation como Preço/Lucro e Preço/Valor Patrimonial. Do lado oposto do espectro de investimentos encontra-se o estilo ‘value’, cujas ações tendem a negociar a um preço menor em relação aos seus fundamentos (por exemplo, dividendos, lucros e vendas). O mix ideal entre os estilos ‘value’ e ‘growth’ no portfolio do investidor é tema de amplo debate acadêmico (Fama-French model) e assunto para financial advisors. O que eu gostaria de chamar a atenção neste artigo é que mudanças na liderança entre estes dois estilos são cruciais para investidores como nós, que pensam globalmente e agem localmente.

O uso de razões (ou força relativa, como também são chamadas no linguajar técnico) é apropriado quando queremos medir o desempenho relativo entre fatores ou ativos. O gráfico acima mostra os gráficos e a correlação anual entre duas razões:

1) S&P500 Value ETF / S&P500 Growth ETF, em preto

2) All-World ex-US ETF / S&P500 ETF, em vermelho

Nos últimos 10 anos estas duas razões operaram em tendência de baixa e com correlação positiva durante a maior parte do tempo. Isso quer dizer que, de 2008 a 2017, o fator ‘growth’ performou melhor do que o fator ‘value’ e as ações americanas performaram melhor do que as ações ao redor do mundo. No entanto, no início de 2016 o fator ‘value’ se recuperou ao atingir a mínima de 20 anos (razão subindo) e, naquele ano superou o fator ‘growth’ por ampla margem. Em 2017 o pêndulo mudou a favor do fator ‘growth’ (razão caindo)… até a semana passada!

Da última vez que o fator ‘value’ se recuperou de mínimas extremas (após o estouro da bolha de tecnologia da Nasdaq em 2000), este estilo performou melhor do que ‘growth’ por 7 anos (até a crise financeira global de 2008). Neste mesmo período, as ações gringas (ex-US) performaram melhor do que as americanas, evidenciando que uma guinada no pêndulo a favor do estilo ‘value’ tende a ser positiva para ações globais (ex-US).

Falando de ciclos, raramente a liderança de ‘growth’ sobre ‘value’ e vice-versa dura mais do que 10 anos. O que dá ao possível fundo duplo que está se formando um caráter especial, com provável impacto na performance futura das ações globais (sejam ADRs negociados nos EUA ou ações na Bovespa) versus suas pares americanas. Este insight é importantíssimo para o investidor brasileiro, que se encontra borocoxô e com a cabeça enfiada no buraco local da Lava-Jato. Pense nas implicações positivas para ações brasileiras de realocações de portfolios que favoreçam ativos globais nos próximos anos.

-Marcio Ferracini, CMT